PODEROSA[MENTE]

 

 
POR DETRÁS DO TEU OLHAR
 
 HÁ O MEU
 
A ILUMINAR
 
quem consegue ver?
 
 

O RECADO

 


Abriu muito os olhos. Talvez não se tivesse dado conta desse facto, porque se assim fosse, ter-se-ía mantido de rosto sereno, os lábios colados, os olhos singelamente abertos pestanejando para manter a humidade necessária à sua lubrificação enquanto lía o recado. Uma nota de nada, uma pequenina nota rabiscada à pressa, sem beijos na despedidas ou votos de felicidade no futuro, um papel rasgado no aproveito de uma folha esquecida sem serventia a outra cousa, um apontamento de última cousa a ser feita porque do resto tudo estava feito. Abriu muito os olhos ao reler o papel. Ainda tinha os olhos muito abertos quando o amachucou rápido, encostou no meio dos seios e depois ainda mais rápido o deitou ao chão, afastando-se para longe. Depois agarrou o pedaço de papel amarrotado, desdobrou-o e tapou o rosto com ele, não quería que ninguém notasse os seus olhos muito abertos na surpresa da despedida.

MEMÓRIA

 


Aparentemente nem prestara atenção. Observando, refira-se. Olhou, depois pestanejou humedecendo o claro da vista. Certamente não havia reparado. Ou melhor, nada ouvira. Que os olhos também ouvem e por vezes tão melhor que os ouvidos, tanto que respondem no imediato quando os lábios se apertam nas palavras silenciosas. Decerto não vira.
Pestanejou de novo. Depois fechou os olhos longamente.
Guardava o rosto com as palavras ditas. Tatuava-se no claro dos olhos de cada sílaba magoada. Chamou-lhe memória.
 
 

HÁ (OLHARES) MAIS

 


Há mais entendimento neste ver que muitos olhos abertos de outros olhares, que este prefiro-o pela sua natureza pura de atacar quando perigado, amoroso quando precisado, fechado quando dorme e aninhado em quem confia. Olhos de alma pura, tão racionais como o que de essência lhe são.
 

NEM METADE

 

 
Se metade do olhar é visto, apenas meio do todo se entende? Dizem que os olhos são as janelas da alma mas quando fechados, como entender o que vai dentro desse cómodo tão secreto que por vezes até o dono se incomoda com o que por lá habita que encerra a sete chaves para que nada se escute sobre as vozes dos seus inquilinos? E aberto o olhar, até rasgado o olhar, quanta da verdade se lê na mentira que possa afirmar-se que uma é outra e a outra não o é?
Por isso, repito: Se da metade do que se vê outro tanto igual será?

REPRODUÇÕES

 


Analiticamente falando, geometricamente reproduzindo, coloridamente brilhando.

 
 
Como se faz à poesia do olhar?

POSES

 

 
Só mais uma, anda, agora para mim, vira para cá, olha para lá, diz que me amas, que gostas de todos, congela o teu olhar por mil anos nesta fotografia e não pestanejes um só segundo, é que precisamos desse azul imóvel, plácido e sem turbulência, sem uma única ruga, mas com muito amor, muito sorriso rasgado no arco a subir, vira para nós e dá-nos tudo, não guardes nada para ti, não sejas egoísta e faz por merecer toda a luz que acendemos a tua vida.
 

SEGREDOS



Olhou e viu.
E todas as imagens se imprimiram como letras de tipografia em papel muito branco, as letras muito negras, para que jamais se esquecessem da sua lembrança.
No título chamou-lhe segredo.
Arquivou as páginas junto a outras que já tinha e guardou-as na sua memória.
De quando em vez li-as na solidão da sua alma, vagarosamente, mas sentía o coração ora agitar-se furiosamente ora descompassar-se até parecer ficar sem ritmo e abandonar-se a um alto de carne.
E por todas as vezes que pestanejava era como se o olhar dos segredos lhe voltasse todo como a roda da tipografia a girar de novo e a imprimir as letras a negro em papel branco.
Por isso, resolveu achar um par de olhos que olhasse nos seus, a fundo e a quem pudesse contar os seus segredos.
 

SÓ VISTO

 



Mais sábio porque mais velho. Ou porque da vida mais embaciados os olhos se tornam pelo brilho que foi dando a outros, luz que tirou cegueira a uns quantos, farol que salvou naus em noites de intempérie e a água salgada que afogava era dele que lhe queimava o rosto, a língua, as palavras do que nunca há-de contar, uma mulher de negro a querer fechar o mundo.
E ainda assim, lembra o seu olhar de menino.
Tudo tão grande, tão belo, só visto, contado ninguém o acredita.

OUTONOS NO OLHAR

 


Das folhas do Outono enche-se o olhar nas melancolias do outrora e das bonomias do recente calor ainda agora tido ainda agora ido, além se acena à despedida, cristalina vista nas águas que lavam cidades e distanciam lonjuras no peito, beijos guardados no silêncio dos segredos como a terra que se adormece na estação.
 
 

COLORIR

 


Tudo o que quero é temperar a vida, multiplicar sorrisos e arquear os olhos em claves de sol até doer, colorir contornos debruados a negro e falar no som mudo do amo-te quando dizes a palavra impossível.
 
 

PREDICADOS

 
 
 
 Acho-me perdido numa cegueira contemplativa. O menor esforço adquire um espaço hérculeo na minha vontade mas não é preguiça, é observação para emenda de erros futuros, é embelezamento no teu olhar. Aprendo. Recolho finalmente o sabor do predicado ao [re]nascer e cristalinamente vejo o mundo pelo teu contar.
 

VER PARA CONTAR

 


Perdão por olhar e sobretudo ver as coisas nas palavras e estas sempre a quererem dizer tanto quanto os olhos, mesmo quando se cerram por terem visto belo ou muito feio e não saberem como fazer pela dor sem explodir em verbo ou no grito e chorar sangue e sal que arda até cegar.
 
Perdão, só abri os olhos porque o sol nasceu e eu lembrei-me que um dia havía de ser bonito de ver para depois poder fazer uso das palavras que me crescem na boca e contar a alguém o que vi.
 
 

ALÉM



 
Nada sabem os que dizem que tu és pedra, metal, coisa morta. Há mais olhar em ti que muitos dos que andam e correm. Há mais além em ti do que os de olhos abertos nada veem, nada miram, nada choram quando o sol nasce, quando este se põe.
Tu tens o teu olhar de matéria nobre e ainda o do artista esculpido em ti.
Quantos mundos vês tu?
Conta-me e rasga os meus horizontes.

 

QUIETUDE



 
Até que os dias pequenos retornem e os olhos se pesem pelo frio que sopra, a inocência dos momentos irá diluir-se com a brisa que já se vai sentindo pela hora do lobo.
Raiam-se no céu os violetas e rosas e a nostalgia dos minutos capta o silêncio das cigarras interrompidas pela mudança dos verdes enquanto o olhar vagueia à procura do sol do riso, do sal do namoro da pele bronzeada. Os olhos azulam-se pelas memórias de tantas estações passadas quantas as águas olhadas no marulhar do horizonte.
Querer ver além.
Apontar o futuro e querer estar lá, trazer na bagagem o olhar das saudades.
 
 

PALAVRAS VERDADEIRAS



 
Há já algum tempo que me desinteressei do que dizem os homens. A verdade esconde-se. É como um caramelo que se molda aos cantos da boca, dos dentes, que se cola e se disfarça enquanto se conversa, vai adoçando o pior dos temas e faz suportar o mais enfadonho dos interlocutores. Mas temo o olhar. Desse não há perdão. Por muitos ensaios e truques, um dia trai-nos e cai a máscara. Não engana. Ou se enfrenta ou se desvia para não mentir. Suponho que seja por isso que cerram os olhos aos que partem. Para que não se lhes descubra a verdadeira essência e se guarde deles uma imagem [quase] perfeita do que foram.

APRENDER A DIZER




Que importa agora o tempo se tudo o que conta é o momento em que o teu olhar poisa e leva o meu, sem pedir licença e sem retorno e soletra mais cem anos de amor num piscar?

UM ANO A OLHAR


Um ano após ainda procuro o olhar. Qual o certo, o certeiro, o justo, o precisado. Não sei. Não faz mal. Antes saber que do sal há tantos prismas quanto a vontade de acordar e fazer do (meu) mundo emoção bastante para o descrever.

O SAL DO LEMBRAR


De todas as lembranças que carrego na minha vida, para além das palavras, restaram os olhos. Não me recordo muito bem de alguns rostos, mãos, altura e até timbre da voz, mas mantenho fresco o olhar com que me pediram e deram. E eu dei e também pedi.
Se calhar só me lembro mesmo do olhar dos que me pediram e deram e daqueles a quem ofereci e gritei por ajuda. Mas desses a memória é tão brilhante que lhes sinto o sal das lágrimas.

ALTURAS



SE O MEU OLHAR FOSSE MAIS ALTO TALVEZ EU PUDESSE SER CÉU